Um bebê brasileiro já nasce fortemente endividado



Todo ano o governo federal torra mais dinheiro do que arrecada. A receita obtida com impostos bate recorde atrás de recorde, mas isso nunca é suficiente. Os gastos crescem sempre mais do que o volume de dinheiro que é arrancado da sociedade na forma de contribuições e impostos. Resultado? Para honrar os seus compromissos, como o pagamento de salários e benefícios, e manter em funcionamento a máquina estatal, o governo precisa tomar dinheiro emprestado. Para isso, emite títulos que são repassados pelos bancos ao respeitável público por meio dos fundos de investimento. São papéis que pagam determinada taxa de juro a investidores dispostos a comprá-los. Na semana passada, o total desses papéis, ou seja, o total devido pelo governo na forma de títulos públicos (a chamada dívida mobiliária), ultrapassou a marca simbólica de 1 trilhão de reais. Dividindo-se essa montanha de dinheiro entre os 186 milhões de brasileiros, daria uma conta de 5.400 reais para cada um. Um bebê que venha ao mundo hoje já nasce devendo 5.400 reais. Pior. O pobrezinho precisa pagar 900 reais ao ano em juros pela dívida que contraiu antes mesmo de dar o primeiro sorriso para a mãe e o pai. Só chorando.

O número de 1 trilhão é grande, mas não quer dizer muita coisa, se analisado isoladamente. A capacidade de pagamento do país, os prazos em que os títulos vencem e a vontade do público de continuar emprestando ao Estado são os fatores que definem se uma dívida de 1 trilhão é problema ou solução. No Brasil, a dívida já foi solução. Hoje é um problemaço. Os analistas costumam comparar a dívida com o tamanho da economia – o PIB. O endividamento líquido do setor público equivale a 51,6% do PIB. Em nações desenvolvidas, esse porcentual chega a ser maior, mas, para um país em desenvolvimento, como o Brasil, o índice é muito alto. Além disso, os investidores ainda encaram o país com desconfiança. Isso se traduz em uma dívida mais difícil de pagar e cara, porque os prazos de vencimento são curtos e os juros, elevados. Todo o esforço do Tesouro Nacional, o responsável pela administração da dívida, vai na direção de aumentar o prazo e reduzir os juros. Poucos países conseguiram fazer isso. Um exemplo é o Japão. A relação entre a dívida e o PIB do Japão supera 100%. Mesmo assim, o Tesouro japonês paga taxas de juro próximas do zero e o prazo de vencimento dos títulos é de décadas. O Japão, por razões históricas e culturais, conquistou a confiança do investidor.

Uma boa notícia é que o endividamento brasileiro já não assusta tanto quanto no passado. "Não dá para dizer que a dívida pública é baixa nem confortável, mas qualquer analista avalia que ela melhorou substancialmente, os prazos aumentaram e a vulnerabilidade diminuiu", diz Paulo Valle, coordenador de operações da dívida pública do Tesouro. Há cinco anos, os títulos cambiais representavam quase 30% da dívida. Era uma roleta-russa. A cada subida na cotação do dólar, a dívida disparava. Hoje, esses papéis são apenas 2,39% do total. O ideal, dizem os economistas, é ampliar cada vez mais o porcentual prefixado, em reais, com vencimento no longo prazo. Os juros são determinados previamente, e os custos ficam menos sujeitos às oscilações dos humores dos mercados. Mas os investidores só aceitam comprar esse papéis se existir um cenário de estabilidade. É por isso que, se o governo descambar para o populismo, a dívida foge do controle, e quem perde são os brasileiros. Nesse caso, a saída seria uma só: chorar como um bebê.

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